Um Passo de Tango

Carlos Zarur . 09 de Maio, 2005

*artigo publicado no site abcpolitiko.com.br

Apenas um passo de tango. Um dramático passo de tango, tendo ao fundo uma velha vitrola quebrada repetindo sempre a mesma ladainha. A tal crise Argentina-Brasil não passa do rufar dos tambores peronistas exorcizando as eleições legislativas de outubro, consideradas um importante teste para o governo Kirchner.

Fica bem internamente criar uma disputa com o Brasil, como fica bem também brigar com o FMI. Tudo isso não passa de foguetório eleitoreiro do Presidente Argentino. Há ainda o ciúme, que nessas horas se exacerba, e, lá bem no fundo, um pouco de defesa dos interesses nacionais.

Os argentinos são especialistas na fabricação de conflitos externos para uso interno, principalmente em duas frentes: no uso político eleitoral ou para encobrir crises. Há, no entanto, exemplos históricos de que manobras desse feitio se viraram contra seus autores. A guerra das Malvinas é uma delas: os militares argentinos uniram o país patrioticamente para, na marra, retomarem o território das Ilhas Malvinas ocupado absurdamente, até hoje, pelos Ingleses. Queriam, na verdade, um pouco de ar para o sangrento regime ditatorial que já caía de podre. Conseguiram, perdendo humilhantemente a guerra, apressar o fim do regime totalitário deixando, como herança, profunda cicatriz e centenas de jovens mortos.

O Presidente Kirchner sabe, melhor do que ninguém, que não vai mudar o papel brasileiro no mundo cuspindo bravatas. Essa é uma posição natural do Brasil que independe de decisões governamentais dos dois países, mas que está afeta ao seu peso político e econômico. O Presidente argentino fala para o público interno e não para o público externo.

As autoridades brasileiras deram declarações conciliadoras depois dos tiros disparados por Buenos Aires. Até outubro, quando se realizarão as eleições, continuaremos sofrendo críticas dos nossos vizinhos e guerrinhas comerciais vão eclodir. Já tivemos, entre outras: a dos carros, das geladeiras, dos sapatos etc. Agora nós é que estamos declarando uma guerrinha: a do vinho. Nossos produtores querem que o governo Lula taxe a importação de vinhos argentinos de terceira, os chamados vinhos de garrafão. O vinho argentino recebe incentivo fiscal e chega aqui mais barato do que o vinho nacional.

Navegando em meio a essas escaramuças – sem citar a cruzada santa do futebol – aos trancos e barrancos, Brasil e Argentina vão consolidando uma importante parceria mundial, o resto é marola no Rio da Prata.

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