Poemas Antigos

Carlos Zarur . 30 de Janeiro, 2006


Bairro Latino


Que mãos aquelas encrespadas

como as teclas do velho piano

Batucando o fox rápido – trágico

O encanecido pianista me encantou

Parecia algo irreal perto de toda a fumaça

Dentro do bar penumbrava


Aqueles corpos tortos

se contorcendo

Piões de cordões longos

Ancas de anjos castos

Rechonchudos por dentro dos vestidos

Finos, domingueiros


Que mãos aquelas encrespadas

nos cabelos negros da deusa da noite

fazendo contorno pelos corpos de cobras

A música agora desce a ladeira

tropeça no merengue lépido e confuso

Fora o silêncio da velha dormitativa


A rua é lavada

O homem lava a rua

para pisar lajes limpas

O que lava não vê

o bêbado que passa

e espreita solene no fim da picada

Madri 30.06.1974




Barulho


Barulho de pedras rangendo

moinho no vento uivando

como a dor que secou de repente

um só secar de terra espremida


Barulho de formigas andando na

tortuosa trilha que caminha

junto às cercas farpadas

junto das linhas e das matas


Barulho de pó no cimento

mexendo a construção acabada

desgastada pelo tempo perdido

envelhecida pelos anos dormidos


Barulho de sinos tocando

no candelabro a vela ilumina

o fim das estrelas perdidas

o início da glória e da vida


Barulho de bomba detonada

destruindo na velha muralha

a tradição de um mundo enganado

o fim da vida, do fato.

15.10.1970




Carpir


A gente chega de todos as partes

São dores dispersas dentro da alma

reabrindo a esquina de podres lajes

quando vem a morte de quem se gosta

longe das sombras de casa

perto do frio de sempre

Se foi outra vez sangrando o interior

que de longe não se consola

foi, outra vez, encontrar os mortos.

Eu fiquei menino tonto de tantas coisas

Fiquei sapateando no mundo

No fundo a dor piscando em pedaços – entre cacos

Foi outra parte minha que se despedaçou

Um imenso instante perdido na lama

O escuro tomou conta da minha rua

A morte assombrou outra vez

Madri 07.11.73




Cordilheira


Tudo acaba na cordilheira

Um sofrer danado despencou de lá

Era o início do tempo, do ar ciumento

O negar do carinho à alma marcada

Todo azul caiu na cordilheira

Só ficou o louro macio dos cabelos

A carne da boca gulosa

Foi assim numa só avalanche de amor

O sol se pôs na cordilheira

Lá bem dentro do meu corpo magro

Bem dentro fez sua morada de escuridão

Nada ficou além de um raio vermelho

Agora eu durmo encolhido de egoísmo

Debaixo de mil cobertores falsos

Eu durmo pensando no abismo

Acordo com a lua brotando na cordilheira.




Encantado


De repente a noite tomou conta

possuída pelo martelar dos grilos

lá no fundo um olho vesgo

olhando das estrelas as formigas mórbidas


Engolindo a terra um vale encantado de nódoas

de espinhos partidos e esperanças dormidas

nas teias o cheiro macabro da morte


Correram todos e viram um homem dançando

pulando elétrico pelas teclas de uma sanfona

correram e ouviram um imenso estampido


Todas as cores se misturaram, se espalharam

era uma dança fantástica de rostos nus,

de corpos se contorcendo com ritmo alucinante


De repente a noite tomou conta

cercada de anjos encantados

lá no fundo um olho vesgo

olhando das estrelas as formigas zombeteiras


A sorte do achado e da hora

um diamante zumbindo como abelha

ao meio dia, no rachar do sol


As montanhas se entreolharam assustadas

o mar voltou gritando, batendo, açoitando

só as conchas ficaram nas areias secas


O homem se estendeu elástico para fora

topou o mundo e depois voltou

encheu de cicatrizes o seu interior mais amplo


Uma conversa de comadres no ar

barulho de pratos na mesa

tudo voltou a normal – calma e paz


Só a noite tomou conta de tudo

cheia de ruídos da rua

e bem lá no fundo um olho vesgo

olhando das estrelas as formigas bêbadas

13.06.1973




Esteio


Um clarão nos meus olhos de bilhar

e na minha boca de chocolate

o gosto ruim do ciúme


No mar uma vela esguia

cuidando dos saveiros

que carregam saudades

Eu não acreditava que pudessem passar

tão belos, navegando com suas redes

Eles passam sempre desnublando a vida

O mastro tomba e deixa o lugar


Ah! Uma estrela brilhando nos meus olhos

e nos meus ouvidos de marfim

um estrondo de pedras quebrando


É uma sombra que vem devagar

enfunando com o vento as asas das borboletas

que voam em minha cabeça procurando o sol

Eu não acreditava que pudessem encontrar

mas sempre encontram – às tontas

Num movimento desesperado de corpo batendo em parede


Dor nas minhas mãos que são garras

e nos meus pés todas as areias do mundo

areias brancas que só vivem à noite


Eles vêm de longe com suas bandeiras e suas flautas

Vêm levantando poeira dos cascos

Suas nucas gosmentas de suor balançam

Todos são covardes, têm medo da vida

têm o orgulho agarrado no corpo – morto

Sou um deles. Torto e mudo dentro de um reto barulho

05.08.73




Fio


A vida por um fio

É um fio de mentira

A vida de brincadeira

Morre a morte certeira

O céu é terraço mudo

O mundo é mundo

Agente é gente

A vida de equilibrista

No fio bambo de frio

Na tarde morta de medo

Paredes lisas e caiadas

Muros de estação de trem

No marrom do subúrbio

A noite pela janela

Os ganchos estreitos e sujos

A morte mais certa da vida

Madri 26.03.1974




Pobres Guerreiros


Um sonho de onde o sonho more

Um grito de onde os sons moram

O amor de onde ela mora

A morte de onde a morte mora


Sangue rubro na noite manchada

de estrelas que vermelhas zombam

Taças de lágrimas brindando os guerreiros

Mortalha colorida na festa da vitória


Caminhos cobertos de flores encantadas

Adubadas com a carne de quem as plantou

Podres da vida que é a terra que os come

Pobres guerreiros da guerra acabada


Tortas cruzes enfeitando túmulos de argila

Habitados por homens de cera. O corpo sem vida

Macabras árvores a velar o sonho, o escuro sonho

dos pobres guerreiros da guerra acabada


Regadores de fogo aguando os jardins de luto

Jardineiro tratando a morte – cortando pela raiz

Pingos d’água na tarde cinzenta – no cinza da tarde

brotando dos musgos, saindo da terra, subindo ao céu


Saudade que vem pelo leito dos rios

E os rios secaram

Alegria que chega pelo canto dos pássaros

Mas os pássaros calaram


Uma aurora de bombas e fumaça em bordéis

Os rios eram vermelhos e ficaram incolores

As matas azuis e prateadas pelas baionetas

dos pobres guerreiros da guerra acabada.




Porta Negra


É depois do jantar


Na hora das moscas zumbideiras

e da preguiça gostosa de não querer nada


É depois do jantar


A porta negra em uma rua qualquer

o número oito, o endereço não sei onde.


Na hora do café a porta recebe o leite

depois o carteiro e um visitante.


A porta abre e fecha sem parar

engoli a tudo e a todos


É depois do jantar


O mundo vê televisão

só a porta descansa


Nessa hora, te encosto na porta negra

embaixo do número oito


Nessa hora, cinto o seu vestido fino

aperto seu peito pequeno


Desenho na sua cintura mil juras de amor

A porta nos abraça e os dois corpos se tornam um


Lá dentro toda a preguiça de depois do jantar.




Sonhos Tímidos


Um grifo, um nicho, uma pêra

No alto do armário de tinta azul

No ar um cheiro asseado de cera

Que faz brilhar a luz do tudo e do nada


Os sentidos estão ligados para as estradas

As estradas desnudas que envolvem o mundo

Que envolvem seres de água e isopor

As estradas ondulantes da minha alma pálida


A solidão me acompanha à mesa

Senta-se comigo e pede uma cerveja

De longe explodem de inveja as mariposas

Explodem em um louco bailado de luz


Andei pelas ruas como sonâmbulo

Vi os homens cantando, bebendo, falando

Como tantas vezes eu cantei, bebi e falei

Só que agora estou só com meus passos tímidos.




Ventos


Ventos. Ventos da minha terra

Secos como o sertão que parte a mão do homem

em mil sulcos de trabalhos e desamores


Ventos que misturam os cabelos

Negros cabelos do meu povo ensolarado

da minha gente sofrida e faminta de pés descalços


Ah os ventos que embalam as redes

Que partem os troncos secos do serrado

e fazem rima com o zumbido da abelha matreira


Ventos. Ventos da minha terra

Mensageiros dos ruídos que se espalham pelo planalto

que assombram a noite limpa e fria de estrelas


Ventos que levantam a poeira do chão

Varrendo toda a dor com seus redemoinhos enfeitiçados

Eu posso escutá-los livres por esse mundo sem montanhas


Com toda a força levantam a lua vermelha

que desentoca o guará na caça agourenta da noite assombrada

Ventos de lua cheia que na minha terra ventam amor

Madri 07.03.1974




Verde de Amor


Ali plantada na rua

Que nem bananeira verde de amor

levantei e vi

os olhos e vi

caminhei e cai

os pés – cai

Longe da terra perto da lua

Bruxa imensa lustrando as estrelas

a morte foi

eu também

a dor brotou

agente foi

Na alameda estranha e vestida

Crianças correm buscando a porteira do sem fim

quem disse?

ninguém disse

quem contou?

o pássaro mudo

Mudei com os trastes e o papagaio

E ali na rua ela ficou que nem bananeira, verde de amor

Madri 15.07.74



Sabena


Aqui estou, em frente ao sol,

no alto das mais altas nuvens

vendo os rios como cobras

e os homens num bulir de lavouras microscópicas.


Estou vendo o reflexo do sol

por trás de uma nuvem estabanada.

Aqui estou, sentindo a imensidão do mundo,

escondido do passado e do futuro.


Águia pura me tornei – bem branca.

Misturei-me com o todo o ar azul

e planei como nunca roçando com minas asas

o infinito de azuis que não sei e ninguém sabe.


Aqui estou eu neste alto de coisas,

Perdido e desperto para a vida.

Aqui, vendo as formas que cobrem o mundo.

Este mundo que de tão pequeno já me nega espaço.




Merecido


Confere ao homem a sua medalha

e ela penderá de seu peito mendigo.

Sugará seu cérebro mesquinho

num só estalar de gula incontida.


Confere ao homem a sua glória

de vida embrumada – encharcada de ódio.

E o homem sorverá tudo, logo da primeira vez.

Sorverá as cores espalhadas nas frontes da multidão.


Há um ruído que aumenta, vem lá do fundo

trazendo todas as rebeliões – inúteis no estraçalhar do mundo.

Mundo prolongado na face contorcida.

Na escuridão da cidade morta um bueiro vive.


Confere uma alameda de trincheiras,

de fogos fátuos iluminando pátios sombrios

causando um arrepio torto em espinha sadia.

Como um peso que tomba sobre o imenso quebra cabeças da vida.

02.08.1973



Para Fora


As esferas giram em nossas mentes

e os girassóis nos jardins de luz,

luz fria no movimento das coisas

que pingam como água pura de cachoeira

na queda agourenta das distâncias,

no diminuir das existências reprimidas.

Todos saímos para fora

acompanhando o sol que é bomba

e queima de terror os rostos desesperados das plantas.

Saímos para fora ao entardecer

e compreendemos no branco que dança

e no azul que padece - sempre,

a revolta trazida no colo macio do vento.

Assim tudo se torna seco,

a natureza se eleva elástica

junto ao homem - anão de formas tortas.

Então, as águas de todo o mundo

se encontram num desaguar de eternidades.

Apagam o fogo aceso nos vales e nos montes.

Na lareira da última casa.



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