Olho para o infinito pedregoso das serras de Minas,
onde colméias abstratas destilam mel.
Ouço o eco do movimento frenético das velhas e
sábias mãos que tecem suas trilhas estreitas.
Sinto o cheiro dos carmins que povoam as margens
dos córregos de águas frias.
Na alma das serras mineiras ainda ressoam o seco estalar
dos cascos de seus inomináveis cavalos.
Animais de ancas magras que Cecília Meireles cantou,
com pelos áridos e olhos servis.
Os caminhos sinuosos naquelas montanhas têm curvas
delicadas. São mulheres eternas e sábias.
Na beira dessas alamedas imemoriais vivem sombras carinhosas, filhas
das velhas árvores.
Meigas, acolhem os andarilhos cansados e calorentos. Despertam
sonhos escondidos no fundo dos corpos magros.
Ah! As pedregosas e infinitas serras de Minas, onde
teias translúcidas abrigam aranhas contemplativas.
Despertam com o canto longínquo de seus pássaros e a luz
que vem do céu absolutamente azul.
Suas chuvas são feitas de água divina, benta nas
igrejas com torres altas povoadas de fantasmas.
O povo dessas montanhas é desconfiado como seus bichos e
possui o raro dom da eternidade.
Cheira ao perfume da terra, numa mistura ideal com a fumaça dos
fogões que consomem a lenha santa das florestas.
Suas moças têm pernas grossas e ancas procriativas. Envelhecem
como as sábias corujas que enfeitiçam as noites escuras.
No fundo de suas almas habita uma intensa saudade, uma dor
inclemente como os relâmpagos - filhos das tempestades.
A gente que vive por aqueles outeiros dourados faz parte
de uma rara geometria de luares infindáveis.
Nas pedregosas serras de Minas, moram, em tocas
insaciáveis, animais irreais e secretos.
São sacis, boitatás, cururus e mulas-sem-cabeça. Criaturas que,
além da floresta, vivem nas conversas das noites escuras.
Há, entre seus segredos, ervas curativas – milagrosas - que levam
qualquer mal na fumaça dos incensos.
Ladainhas ecoam pelas suas alturas, desfiando rosários
brancos, infindáveis e eternos.
Orações, cristalinas como riachos, sobem ao céu estrelado, no
ritmo modorrento das bocas enrugadas.
Consolam as feridas negras de minério, que consomem dolorosamente
almas impuras e tortas.
Distante, a atávica memória de outras vidas corre pelos vales secos,
com maciços pés descalços e andarilhos.
As serras mineiras são assim, feitas de capim meloso, de sombras e fé,
do amor quieto nas camas simples trançadas de couro.
Saudades das serras infinitas e pedregosas de Minas!
© Copyright 2005-2010, Carlos Zarur. Direitos autorais reservados.