A Bomba de Jong-il

Carlos Zarur . 18 de Outubro, 2006

A insanidade de uma nova corrida armamentista nuclear tem como razão direta a desastrosa política externa do Governo Bush, que colocou os Estados Unidos, agressivamente, em posição de combate contra os “temíveis” inimigos do “eixo do mal”.

Parece coisa de filme de aventura, mas não é. Pode levar a conseqüências catastróficas como a destruição repentina de uma paz mundial pós-guerra fria, costurada durante anos pela diplomacia internacional e que vem se equilibrando em meio a guerras regionais menores.

A Coréia do Norte e o Irã não têm nada a perder, principalmente quando visualizam o sofrimento do qual o povo iraquiano está sendo vítima depois da invasão norte-americana. Uma verdadeira carnificina que contabiliza mais de 60 mil civis mortos.

Parece aquela história que se conta para possíveis vítimas de assalto: “não reajam, pois eles não têm nada a perder e é melhor entregar o tênis do que perder a vida”. Já os Estados Unidos têm tudo a perder, caso o maluco lá da Ásia, líder supremo da Coréia do Norte, Kim Jong-il, resolva jogar uma de suas bombinhas na cabeça do maluco lá da América do Norte, George Bush.

O que está enlouquecendo as autoridades americanas é a total falta de informações confiáveis sobre a extensão do poder destrutivo da Coréia do Norte. Há uma incompetência crônica dos seus serviços de espionagem e informação. Não conseguem nem achar o Bin Laden, que já virou lenda e fica zanzando por aí. Mas, segundo a agência de inteligência americana (CIA), um programa nuclear para enriquecimento de urânio do país asiático estaria produzindo “duas ou mais” bombas por ano até o meio desta década. Tratando-se de bombas atômicas não é pouca coisa.

A atual crise coreana começou mesmo quando, em 2002, Bush incluiu a Coréia do Norte no seu “eixo do mal”. Isto fez com que os asiáticos retirassem seu apoio ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), do qual eram signatários, e gerou temores de uma guerra atômica. No mesmo ano, Pyongyang reativou o seu reator nuclear, em Yongbyon, e o governo expulsou do país dois monitores nucleares das Nações Unidas.

O conflito em curso é bem mais complicado do que, por exemplo, a guerra do Iraque. Lá, os Estados Unidos derrubaram um ditador sanguinário, bem conhecido de Washington, pois durante muito tempo foi seu confiável aliado. Além do mais, o Iraque, apesar de não ter armas pesadas, continua dando trabalho: a invasão que parecia resolvida cobra vidas, não só de iraquianos, mas também de milhares de jovens soldados americanos, além de significar uma importante sangria na economia dos EUA. A diferença principal é que Saddam Hussein não tinha poderio para ameaçar a integridade do território dos Estados Unidos ou de seus aliados.

A situação geopolítica da Coréia do Norte é outro importante complicador desta crise, pois o país tem fronteiras com China, Rússia, Coréia do Sul e está cara a cara com o Japão que sofreu na carne a explosão de duas bombas nucleares: Hiroxima e Nagazaqui. Bombas despejadas por seus atuais protetores norte-americanos, em 1945, que já tinham a guerra ganha. As duas bombas mataram e feriram, imediatamente depois da explosão, cerca de 200 mil pessoas e seguiram matando por muito tempo por causa da radiação. Houve inúmeros casos de crianças que nasceram defeituosas em conseqüência de alterações genéticas e muitos casos de leucemia, só para citar alguns exemplos. Se comparadas as de hoje, as bombas de Hiroxima e Nagazaqui são consideradas de pequeno poder destrutivo.

É muito difícil avaliarmos quais serão os próximos passos do errático líder norte-coreano Kim Jong-il, mas a questão nuclear pode ser apenas a tentativa de negociar um pacto de não-agressão e ajuda econômica dos Estados Unidos. O governo Bush, se tiver ainda algum juízo, deve sentar-se à mesa de negociação, pois a única alternativa que resta é gerenciar a questão da melhor maneira possível, sem fanfarronices e riscos desnecessários.

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