A Mesma História

Carlos Zarur . 26 de Abril, 2007

A violência que campeia no Oriente Médio e que, só no Iraque, já matou cerca de 700 mil civis, tem suas causas históricas mais recentes ligadas à conferência do Cairo, realizada em 12 de Março de 1921. Naquele momento, Winston Churchill, mais uma vez, entrava em cena como ator principal.

Nomeado pelo Primeiro Ministro da Inglaterra, David Lloyd George, para o cargo de Secretário de Estado para as Colônias, Churchill, com seu estilo impetuoso, resolveu mudar a região, com destaque para a Mesopotâmia, e criar ali um reino artificial que, comandado por um títere – Rei Faiçal – garantiria os interesses imperialistas ingleses.

Churchill convocou para a conferência do Cairo todos os especialistas de destaque envolvidos mais diretamente nas questões do Oriente Médio. Com seu humor cáustico, os chamou de os “quarenta ladrões”. E assim, alguns homens arrogantes e prepotentes, entre eles o antológico Thomas Edward Lawrence - Lawrence da Arábia – manipularam povos e demarcaram países, ignorando suas culturas, tendências e religiões visando simplesmente os interesses imediatos da Inglaterra. Entre essas manipulações, talvez a mais irresponsável tenha sido a concepção do Iraque, um país criado na velha Mesopotâmia, território entre os vales dos rios Tigre e Eufrates.

Chama a atenção, ao vermos a história do imperialismo ocidental no Oriente Médio, a constatação de que nada mudou desde a nefasta Conferência do Cairo. Os líderes são outros, mas pensam e agem da mesma maneira que pensaram e agiram os “quarenta ladrões” em 1921. Bush e Blair voltaram suas armas contra o Iraque para derrubar o títere moderno, antes aliado, Saddam Hussein. Entraram numa grande fria, pois agora não sabem como sair daquele verdadeiro celeiro de morte. Churchill e seus amigos já tinham noção das dificuldades e dos gastos para a manutenção do poder na região e tentavam, desesperadamente, uma solução tipo “empire lite”, expressão cunhada pelo ensaísta Michael Ignatieff significando o imperialismo só com as vantagens, mas sem os custos, adotado posteriormente com sucesso pelos Estados Unidos, em diversas regiões do mundo, inclusive aqui na América Latina.

Os Ingleses, após derrubarem o governo Turco da Mesopotâmia e criarem o Iraque, também não sabiam o que fazer para sair de lá. O excelente livro “A Loucura de Churchill”, do historiador Christopher Catherwood, reproduz telegrama em que Churchill discute o assunto: “... desalojamos o governo turco, que era na época a única instituição governamental estável no país... Se, depois de tudo isto, vergonhosamente nos retirarmos agora para o litoral, deixando para trás a pura e simples anarquia... terá acontecido algo que de modo algum se harmoniza com a fama que tem cercado a Grã-Bretanha”.

É a história se repetindo. Este telegrama, endereçado por Churchill a Lloyd George, poderia ser enviado hoje ao Primeiro Ministro Blair ou ao Presidente Bush. Como sair agora do Iraque, depois de terem derrubado um governo que, mesmo sangrento e ditatorial, era a única instituição governamental estável no país? Qual a solução para uma retirada depois de tantas mortes e sofrimentos sem alcançarem o sucesso? Como disse Churchill, sobre uma possível retirada inglesa, depois de ver o circo pegar fogo no país que havia recém criado - “não devemos subestimar as desvantagens e mesmo a vergonha de uma tal opção”.

O Iraque nunca deveria ter sido invadido, havia como solucionar as coisas através da negociação. Saddam Hussein sabia que seu poder estava no fim sem seus aliados americanos e ingleses. Falou mais forte, no entanto, a intransigência de Bush e de seus falcões, pois acreditavam que a invasão seria uma moleza, o que de certa forma foi mesmo. Esqueceram-se, porém, do dia seguinte.

Não só a dinheirama do petróleo faz o jogo pesado no Oriente Médio, em especial no Iraque, mas também a questão palestina-israelense e, sobretudo, o Iran, só que aí, tudo fica mais complicado. Uma guerra estendida no Golfo Pérsico, além de aumentar tristemente o número de mortos civis e militares, poderia ser um desastre econômico sem precedentes para os aliados americanos e ingleses e, conseqüentemente, para o mundo. Até agora parece que isto foi compreendido, pois se pode notar o cuidado de todos quando a questão é Iran. Churchill já sabia que a velha Pérsia devia ficar quieta. Traçou fronteiras, sufocou rebeliões, mexeu profundamente no Oriente Médio, mas deixou o Iran no seu canto.

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