
Whippet, aquele galgo magrelo de corrida, é também um modelo esportivo de carro fabricado nas décadas de 20 e 30 pela Overland, nos Estados Unidos. Eu, acreditem, tive um desses automóveis. Foi o meu primeiro carro antigo que me trouxe para o prazeroso mundo de sensações imemoriais. De cheiros, tatos e sentimentos.
O carro não tinha mais nada de esportivo. Haviam retirado sua leve e harmoniosa traseira e colocado uma carroceria de madeira, transformando o ágil corredor em uma picape para o trabalho pesado. Era amarelo, com o radiador pintado de preto assim como seus longos pára-lamas, que davam para uma criança escorregar e que denunciavam seu passado esportivo.
A história é comum. Eu morava na chácara, que possuo até hoje, na cidade de Sobradinho aqui em Brasília, quando fui ultrapassado pela picape estranha que imediatamente irradiou ao meu celebro o desejo incontrolável de segui-la e conhecê-la de perto. Naquele momento, manifestava-se em mim o vírus que havia sido inoculado em minha alma pelo velho fusca de minhas brincadeiras de infância no Rio. Lembram?
Fui atrás. Perto de Planaltina, consegui emparelhar e fazer o carro parar. Ali mesmo negociei sua compra e voltei para casa pilotando a Whippet de meus amores e arrependimentos. Arrependimento por tê-la vendido, ingrato, antes de ir morar nos Estados Unidos, país que me acolheu por quase três anos, durante o exílio a que me impus no desastroso governo Collor.
Quando a família ganhou este membro ilustre, meus filhos mais velhos eram pequenos – década de 80 – e viviam empoleirados na colorida picape amarela e preta de carroceria azul. Além de encher nossos olhos, o velho automóvel trabalhou, fazendo roncar o seu motor de Jipe, com seis cilindros. Carregou de tudo e até arou os pastos.
Como fui ingrato ao vendê-la!
Frio, em um momento impensado, não levei em conta os arrependimentos futuros. Lembro-me, no carnaval, quando lá ia ela, empurrada pelo bloco Pacotão, dos jornalistas, protestando pelas ruas de Brasília contra a ditadura. Pois é, até carro alegórico ela foi. Todas as crianças perdidas eram acolhidas por sua carroceria maternal. A maioria dos pais, curadas as bebedeiras, voltava para resgatar seus rebentos, gratos pela proteção oferecida.
Passados vários anos, já na atual década, fui procurado por um oficial da reserva da PM de Brasília. Pedia que eu fosse ao cartório com ele, atualizar os documentos de um carro que havia comprado. Era a minha Whippet. Minha velha amiga de tantos bons momentos.
Não cheguei a vê-la nunca mais e perdi o contato com o comprador. Gostaria de reencontrá-la e, caso ocorresse um milagre, de comprá-la outra vez.
Por isto, caso você encontre por aí, rodando séria e compenetrada, uma picape diferente com um escudo, logo abaixo da tampa do radiador, escrito Whippet, avise-me Com certeza será o velho automóvel que tanto prazer me deu e que recebeu, em retribuição, a ingratidão deste seu velho dono saudoso.
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